quarta-feira, 11 de abril de 2012

Aprendendo a sair dessa nostalgia

ㅤㅤSem sombras de dúvidas naquele mundo não havia ninguém mais desordenado que aquela garota mandona. Até mesmo sua mãe a criticava: “Desse jeito Ana, ninguém vai te agüentar”. Suas amigas reclamavam um bocado, todos os dias. Mas ele, ele, bem... Ele nada criticava, ela era perfeita aos olhos caramelados dele. E ele, perfeito aos achocolatadinhos dela. Assim que ele chamava os pequenos olhos de Ana.

ㅤㅤOntem foi o dia em que Ana resolveu sair às compras. Aquelas mesmas roupas de sempre – questionava. Bem, realmente eram as mesmas roupas de sempre. Principalmente o vestidinho de pano leve e flores pequenas por todas as partes, bordados trabalhados na cor lilás. Ana tinha os cabelos claros, muito claros. A pele tão branca e a boca sem cor alguma. O pai nunca a deixara passar batom, por mais claro que fosse e sua boca nunca se destacava. Porém, era o desenho mais bem feito. Carnuda, linda e saborosa como ele a dizia todos os dias. Ela não se resolvia nunca, não achava o tamanho certo quando gostava e quando achava o tamanho certo não gostava. Tinha que ser um presente dele. Ela só iria gostar se fosse dado por ele! As roupas mais usadas de Ana foram dadas por ele. Só assim ela gostava e usava alguma coisa. Caso contrário ficava em casa com o mesmo pijama de 5 anos atrás.

– Ora, tenho 17 anos Mãe, não cresço mais que isso, não engordarei mais que isso, não mudarei meu número. Será este mesmo, eu me lembro que ele sempre disse que esse era o pijama mais charmoso de todo o mundo e será esse sempre.
– Entendo querida, mas por que não surpreender?
– Surpreender, Mãe?

ㅤㅤAna passou a tarde toda pensando em como seria “surpreender” achou interessante realmente arrumar as malas ir para a casa d’Ele e na hora de se trocar para uma soneca com muitos beijos, vestir um pijama novo, com sabor de surpresa. Mas e se ele gostasse tanto do meu velho pijama que sentiria falta de um eu meu velho que se perdeu, foi jogado por detrás? Se ela perguntasse também não haveria surpresa alguma! Até que o telefone tocou, e Ana como sempre gostava de colocar toques diferentes para cada pessoa diferente. Então a música mais adorada por ela era a que acompanhava ao vibrar do celular pequeno e rosa, muito rosa. Era ele, ela sorriu.

– Alô?
– Ana! – suspirou. Eu estava pensando em sairmos juntos hoje à noite. Fiquei sabendo que comprou uma roupa nova. Que tal estréia-la pela primeira vez comigo? Tenho certeza de que estará linda!
– Sim. É... Adoraria sair hoje à noite com você usando uma roupa nova. Mas eu, não comprei nada.
– Não? Por quê? Mas não tem problema, aceita?
– Vou estar horrível.

ㅤㅤE assim Ana desligou o celular. Não sabia se estava triste, nervosa, ou simplesmente não se importava com a situação. De qualquer forma pensou que ele gostaria que ela estivesse com a roupa nova. Porque afinal de contas, ela era sempre a mesma com seu vestidinho lilás bordado e velho. Ele, que estava na casa de sua mãe pegou seu carro e foi até o condomínio de Ana. Hoje, era o dia em que o condomínio festejava por ter completado 10 anos! Havia karaokê, muita comida, todas as suas amigas vizinhas estavam lá, Ana ajudou a comprar várias coisas, porém não quis participar da festa que por direito também era dela. Dizia que não tinha o que vestir e completava: só alguns trapos que servem de conforto ao meu corpo cansado.

ㅤㅤAo caminho à casa de Ana, parou em três lugares, que vocês e ela só vão descobrir mais tarde. Agora vamos, porque a história é contínua.
Por fim saiu dos lugares e chegou ao condomínio de Ana de mãos vazias.

Toc, toc, toc

ㅤㅤJá mencionei a extrema preguiça que Ana tem de receber seus convidados? Não gosta de abrir a porta e ter de atender alguém, principalmente amigos de seus pais. Sempre tem de dizer “Por favor, entre. Aceitaria alguma coisa? Chá? Café? Ou até mesmo Água? Sente-se aqui.” Palavras de sempre são mesmo irritantes. Mas mesmo não gostando abaixou o som da televisão levantou-se e foi em direção à porta.

– Realmente não me esperava aqui, estou certo?
– Completamente.
– Ao menos posso entrar?
– Ah me desculpe, claro que sim, aceita alguma coisa?
– Um café apenas.
– Eu não fiz café hoje, sinto muito, não farei agora.
– Por favor?
– Você sabe como manipular uma pessoa, não me olhe assim!

ㅤㅤEle coçou os olhos levemente até ficarem avermelhados, fez um bico adorável e entristecido, encheu os olhos d’água sentimentais.
– Você pode parar agora? Sente-se. Eu já volto.
ㅤㅤEle sorriu e mandou um beijo delicadamente. Esperou até a sombra de Ana desaparecer e saiu. Foi até o porta malas do carro e pegou os presentes que havia comprado para Ana. Se quiserem posso contar-lhes como foi o caminho até os três lugares não comentados.
Está bem...

Continua.


(Fernanda Lionetti)

quarta-feira, 21 de março de 2012

ㅤㅤ“Sim eu lhe perdôo”, foi à única coisa que eu queria e a única que eu não tive. Aliás, não tive muitas coisas. Você não me deu a chance de explicar e talvez amolecer a parte do seu coração que eu transformei em pedra. E fiquei sem voz quando recebi sua facada, não me cortando, cortando minhas palavras que nunca valem para nada. Pois, poderiam ter valido alguma coisa. E é sempre assim, acabam-se as conversas e pensamos no que dizer depois.

ㅤㅤSai pra lá, agora esquece, foi a ultima tentativa minha. E dói, dói muito saber que você não mexerá um dedo para fazer tudo ser como era. Escorreu as lagrimas tão suas e tão vivas pedindo por uma simples palavra que me erguesse para dizer tudo o que eu precisava. Você simplesmente falou tudo o que eu não esperava. Quando aceitei ser magoada eu queria xingamentos, palavras totalmente pesadas. E recebi palavras moles, cheias de mágoa dizendo o contrário do que sente. Fazendo o contrario do que quer. E me derrubou. E sempre aquela velha história.

ㅤㅤAliás, achei que nunca mais escreveria para você, mas estou. Infelizmente é o único jeito de tirar tudo o que me fez sentir nesses vinte minutos de conversa.
Por que o final tinha que ser tão doloroso? Eu sofrendo novamente por sempre fazer as escolhas erradas. Apesar de tudo, hoje eu sei que eu te amo até mais do que eu imaginaria que amava. Porque em vinte minutos você despertou e me fez colocar para fora tudo o que estava engasgado em relação a você. Mas somente por lágrimas. E agora até mesmo a fruta que mais acho ruim, foi doce. E eu quero mais e mais dela. Talvez você se sinta triste mais tarde, uma coisa é certa, me sinto agora, me sentirei depois e depois.

ㅤㅤSó mais uma coisa, estou com saudades de você. Você não é a pessoa que foi hoje. Diga a essa pessoa, que jogar o coração de alguém que já lhe deu a mão, é sem razão.

(Fernanda Lionetti)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Outro eu meu continua seu

ㅤㅤComo um novelo que me sufoca, me prende, me esnoba. Quero você para mergulhar a cabeça no meu cabelo claro, para desenrolar o enrolado para fazer de mim tua. Pertencendo a mim.
De olhos fechados o enxergo mais claro, ter você aqui do lado, num café um cafuné.
Você chega, constrói seu lar, cuida, e dura. Poderia durar a vida toda, pois nos equilibraríamos bem. Seria destrutivo, às vezes frágil, mas seria forte. Nossos olhares se entrelaçando em forma de lua na noite negra. Imagino-te, mesmo que depois inflame, mesmo que depois derrame, lágrimas de neve. Dôo, dôo porque amo cicatrizes que jamais poderão ser pele lisa novamente.

ㅤㅤAmor se outro recheio te encantar, se outro perfume te embriagar, se outra gargalhada quiser escutar… Que seja a minha, na minha segunda fase, no meu segundo eu.
Imagino-te agora, cantando suavemente canções de ninar para tua irmã… Imagino-te chupando sorvete, andando, estressado, com vergonha, abrindo um pacote de salgado. Ah; imagino-te tanto.
Colhe uma flor, com amor, para dar de presente a tua princesa. Que seja eu essa princesa. Que seja minha essa flor, que seja meu o teu amor. Que um dia teu lençol seja meu, que um dia possamos dividir a mesma cama. Sem ser em pensamentos constantes, e inconstantes, sendo de carne, de pele, de sangue, de real. Sendo animal.

ㅤㅤO que importa, é que você não vai embora, eu não permito que vá; não sem antes me dar tua vida em mãos. Eu te cuido, pode deixar. Arrepia a alma e rasga o peito pensar em um futuro sem você. Mas ta, posso agüentar ficar um pouco mais por aqui, contando os dias, que são poucos, esperando pelo momento em que virei teus pés tocar ao chão, na minha frente, ao meu lado. Deixe-me medindo detalhes, tentando descobrir nossos lares.

E a gente se equilibra
Pouca força
Pouca linha, pouca costura.ㅤㅤ
Mas se equilibra...


(Fernanda Lionetti)

sábado, 10 de março de 2012

Ininterrupta

Você que nem sabe que é o meu “você”
Fluía e fui dançando na tua e nossa sincronia;
Mergulhava sobre nuvens enquanto eu somente
Estava me levantando daquela cama cansativa
Para um novo café-da-manhã.

Depois de uma noite de danças, de amores
De risadas, de pensamentos fervorosos
Sucumbi mais uma vez e lá estava eu sem você
Recolhendo o jornal deixado na caixa de correio
Abrindo a porta da sacada para derramar água
Fresca a flores com cede.

Queria desvendar-me naquela manhã insegura
Mas as manhãs nunca me favorecem
Estava lendo então trechos
Procurando encaixar-me
Em cada palavra só.

Fui feita para um café a dois
Para um cappuccino a quatro
Para laranjada a seis
Para limonada a dez.

Para dormir as uma e vinte seis de um dia normal
Acordar cansada e com raiva de mim mesma
Por não ter dormido antes;
Rígida até comigo mesma
Menos com você.

Acontece que a torrada torrou
Que a água transbordou
Que o suco estragou
Que você se aquietou.

E sonhei que invés deu tu que estavas recolhendo
As flores mortas do jardim
Invés deu tu que estavas recolhendo as maçãs da
Árvore ‘verdim
Ora invés deu tu que estavas dando aos cavalos
Os capins;

Teu olhar sempre me foi suculento e gracioso
Majestosamente radiante.
Poderia fazer-me pensar ‘trocentas vezes.
E voltou para roça a cavalgar
Deixou-me sentada no sofá
Você como pode fazer-me esperar?

(Fernanda Lionetti)

Uma não reconquista perfeita

ㅤㅤComeçando um novo abismo no qual cairemos. Me desculpe, me perdoe, lhe imploro. Sou como rainha má vestida de branco e atingida por sangue. Sangue nosso. Estou cavando tua cova, mas a minha promete ser maior. Estou chorando tuas lágrimas e minhas, enquanto vejo-te derramar apenas as tuas. Meus dedos sob teus lábios e só sabes dizer: Não me olhe. Não me toque. Suma ou vá embora; enquanto insisto por um último beijo tenebroso. Com teu coração, meu coração despedaçado, esfoliado. E eu sei onde erramos e por que erramos.

ㅤㅤE a ferida dos nossos peitos deixam sinal da ruína, enquanto tentamos ser nós mesmos. Antes que pare com as batidas do meu coração, antes que vá contra o tempo. E eles então nos dão o passa-porte de ida. Não há volta. A carta sob a mesa inteiramente levada pelo vento. E eu tento com as mãos tremulas escrever-lhe outra. Não adiantou as proibições, nos perdemos de nós mesmos.

ㅤㅤTua voz exigindo explicações, teus berros querendo concertos, desejando somente a minha morte e não a tua. Você não morreu. Nem eu. Só nós. Só o nós. Isso te deixará mais forte no final, bem final. Lhe prometo. Não me venha a dizer que não há promessa no meu ser. Lhe prometo, meu doce. Eu só quero tua harmonia. Eu só quero sorrisos felizes de ti. Foi o jeito em que achei, em que me encaixei. Em que nós poderíamos sorrir juntos, contadores de poesias. De piadas. De atrapalhadas.

ㅤㅤAquela cama jamais desarrumada há de chorar. Começou pela ponta dos dedos, acabou pela ponta dos pés. O gosto do teu café jamais feito pra mim será guardado. O encontro nunca poderá ser reencontrado, nunca existira. Sempre foi mais verdade do que eu. Embora por anos tiver sido mentira tosca, fosca. Te renovaria por anos se fosse necessário (e é) mas eu lhe apodreceria com os olhos. Te levantaria a busca de nuvens comestíveis. Mas eu a transformarias em pó sujo e construtor de alergias. Te beijaria as costas nu e prometeria nunca mais prometer. E ceder a promessa a você.

(Fernanda Lionetti)

...

ㅤㅤDe pés calejados, cansados, tento bailar por aí. Sem encontrar abrigo fresco. Morna e carregável. Jogando para escanteio o peso de meu coração quente e palpitante. E então se torna superável. E então me torno carga fácil. Não encosto meus joelhos ao chão, meus cotovelos não estão mais ralados. Sinto-me passarinho livre. O vento fresco rodeando-me toda trazendo prazer e aconchego. Porém… Encontro vestígios de desejos não realizados no fundo dos olhos e no frio do coração.

ㅤㅤCarrego no ombro saudades e vontades, mas é fácil lhe dar com isso quando se tem pão, manteiga, muita cafeína. E você… Não sinto cheiro enjoativo no meu perfume, não vejo roupas amareladas de velhice, a casa não está tão empoeirada e as xícaras estão bem detalhadas. Tudo parece bom, me tornando forte e incrédula. Levantando-me todos os dias e tomando café da manhã com mesa bagunçada, com uvas verdes e roxas misturadas… Ainda sou bagunça, mas melhor ser bagunça a ser nada.

(Fernanda Lionetti)

Meu caro amado, és complicado

ㅤㅤSeus olhos são azuis, me perco neste céu. Seus lábios são dourados, parecem pão-de-mel. A escala é cheia de curvas recheada de pequenas facas cortantes. Você deve ir descalço para ser um bom amante. Salvar uma vida não é tão fácil quanto alvejante. Pular nu no riacho sem saber nadar é a espera que alguém vá te salvar, e em pleno contato com teu corpo se apaixonar. A chuva destrói a torre de papel que fez beira-mar, e até a árvore de Natal para uma seia de jantar.

ㅤㅤChamo-lhe para deitar em redes rasgadas e tomar café frio de ontem em xícara esgaçada, enquanto nos delírios dum amanhã; precisamos namorar. Bagunço tua blusa retirada das mãos de tua mãe que se pôs a passar, só pra você passear bagunçado e ninguém te olhar. Que bobagem a minha “ninguém te olhar”, todo mundo te olha, até em pleno luar. Luar lindo de vibrar e todo mundo a te olhar. A churrasqueira da esquina lhe da churrascos sem cobrar, a padeira lhe da o pão caprichado do café-da-manhã, a dona do restaurante lhe da o almoço e de cortesia da cortesia o jantar.

ㅤㅤVocê comprime meu desgasto. Você é o bom chefe da cidade que namora a menina “por bondade”, bondade e saudade de quem chora de verdade. Numa manhã de terça-feira me olha apetitoso querendo meu eu todo. Você é sal misturado com açúcar. É gostoso e é a cura. Não enjoa não se é dispensável. É pequeno miado em plena latidão. Faz-me de tonta em frente à porta de tua casa; e aí sinto mel caindo em meu cabelo que depois de duas horas no cabeleireiro estava pronto. Vem manhoso dizendo que me adora, até debulhar em mim tua garrafinha de água, e borrar a maquiagem totalmente trabalhada. Que pirraça! Que pirraçada esse menino é. Dizendo em voz silenciosa, que se não fizesse esforços não ouviria: Prefiro-te assim, natural e bagunçada, desorientada e imperfeita a seu ver. Mas perfeita aos meus olhos. Mas perfeita aos olhos de quem um dia ao menos teve um pouco do teu querer.

ㅤㅤPirracento, estranho e im(perfeito) é meu amado jovem. A lareira não queima mais que nós dois sentados naquela poltrona que se abre quando nossos corações se entregam. Não há fogo mais quente que nós dois em pleno mês de Verão. Nossos chãos derretem e ficamos caindo num abismo perfumado. Têm seu cheiro, tem o meu. O Perfume que se junta quando nossos corpos pedem por mais. Você é gozado. E Eu gosto assim. Em noites de verão ficamos assim, como ontem a noite, nunca chega num fim.

(Fernanda Lionetti)
ㅤㅤEmbaralho-me, despedaço-me, esmigalho-me, por você, como se tu fosses meu abrigo mais aconchegante, meu castelo mais radiante, minha confusão mais brilhante… Me seguro a você, como se pudesse me salvar, como se fosses meu remédio, levemente nossas mãos vão se desgrudando, se descolando, como se cola alguma pudesse fazer grudar, ficar. Um grande espaço ainda não preenchido faz confusão. E sinto-me vazia.

ㅤㅤAmor, há sorrisos meio a tantos escombros. Há presentes por detrás dos cômodos. Há suavidade no tombo dos ombros. E promessas vão e vem. E continuo sem você. Sem te ter. Ver.

ㅤㅤMas, há, há finais felizes por detrás disto tudo engolindo o escuro… Há ritmo seguro balançando sem esturros.

(Fernanda Lionetti)
Está apaixonada?
ㅤㅤSou paixão-nada.
Paixão nada?
ㅤㅤㅤㅤNada paixão!
Nada o que?
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤNão, nada não.
Sim nado sim... Golfinho, sereia, borboleta. Até tubarão. E você?
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤEu? Nada.

(Fernanda Lionetti)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Tanto faz outra vez

ㅤㅤVocê chega e tudo que espera é um beijo doce em seu rosto, um olhar adocicado. Mas parece que ele pensa que você pensa que os dois são separados. Nem olhar, nem beijinho ele nem lhe deu carinho.
Mesmo assim chegou de mancinho e logo esbarrou seus leves bracinhos, nos dele, que por mais estranho que seja, são leves também. E se olham e se imploram, um pelo outro, mas isso é tosco, não querem se apaixonar denovo. Sentem medo, pedem socorro.
ㅤㅤAliás, quem quer bolo?
ㅤㅤ- Qual sabor?
ㅤㅤ- Chocolate.
ㅤㅤ- Aceito.

(Fernanda Lionetti)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O bater do vento sob as rosas brancas

Zé, nunca gostei de coisas comuns..,do fácil, do recíproco. Olhe para a cachoeira imensa e perfeita Zé. Em toda tua volta existem rosas vermelhas, vasos lindos e deixados para trás como folhas a dançar tropeçando. Quero um acordo com o tempo, com o vento. Do tempo só quero que ele passe devagar, que ele saiba bailar; do vento só espero que não bata em meu rosto ao abrir a janela emperrada de meu quarto branco-esperança.
Se fosse escolher uma cor para teu corpo Zé, seria azul. Azul feito céu, azul feito calma, cama, azul fosco. Às rosas brancas encontradas conversando com meu abajur rose foi deixada por você? O vento a quebrava e a contorcia enquanto a pequena tentava acalmar. Um copo de água deixado no quanto a fazia babar; secar. Cuidei então, a fiz melhorar. Tão grandiosa, charmosa, coloquei-a na mesa mais importante da sala da estar. Ela ia morrendo, ia lutando, envelhecendo, queria seu velho lugar. Só em cima do abajur rose ela soube se tratar.

(Fernanda Lionetti)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Você não volta, sufoca

Esperando o telefone tocar. Por quê? Se não quero atender, se não fui atender, não mexi os braços fingi esquecer. Mas deu saudade da sua voz mesmo com tom de ironia, com a garganta seca. Iria lhe oferecer água para dar uma leve molhada e um gosto mais amável, uma escuta melhor para meus ouvidos. Mas eu gosto do natural seu. Do seu “obrigado viu” quando queria mesmo me xingar por não atender a semana inteirinha. Eu não atendi e não foi por mal, realmente não sabia o que dizer; alô? Alô é muito clichê, chegar rapidamente num assunto? Perguntar se está bem? Eu não conseguiria ouvir um estou mal como resposta. Me sinto maligna a pior das piores e ainda escuto que você realmente não deveria ligar. Talvez não ligue, talvez queira só fazer teu nome aparecer pela telinha me fazendo ingerir sem ao menos mastigar qualquer coisa que coloque a boca.

Três mordidas e está pronto pra engolir. Duro e sem caldo de sabor. Podia aparecer aqui em casa qualquer dia para desamarrar meu tênis duas vezes maior que meu pé. Você, querido, me deixa de pernas pro ar. De cabelos ao chão. De ponta cabeça. Será que tenho ponta? Ponto final? Talvez não tenha. Esqueço tanto de tudo e não me esqueci de você. Controlo-me tanto para não deixar escapar por barreiras um: por favor, puxe assunto, quero saber de você. Será que quer saber de mim também? Ao menos uma pergunta simples que me arranque sorrisos bobos e traiçoeiros. Na noite passada só me fez morrer a cada palavra amarga que soltava em meio de meus carinhos mal sucedidos. Não o vejo mais em nosso dia-a-dia e se soubesse o quanto sinto falta disto. E daquilo. E demais aquilo outro que sabes. O coração dispara um pouquinho ao ler teu primeiro nome limpo, pequeno, fofo, tão meu. Rima com algo de desamarrar cadarços. Desamarrar laços perfeitos. Desbotar cores fortes. Será que vai aceitar um pobre convite humilde de uma garota com rosto mimoso? Com olhos inchados e transbordantes por lágrimas coloridas de desgostos. Reclamona e impaciente. Será que atura? Que consegue? Que se entrega para mim que pouco sei me cuidar?

Só tento liquidar espinhos e me faço de grosseira. Se pudesse olhar para dentro de meu peito só veria explicações satisfatórias as quais jamais lhe diria. Neguei-te, te nego às vezes. Mas me entregaria facilmente com qualquer simples verso no qual me sinta segura. Às feridas são em grande porcentagem, mas eu as adoro. Combinam com os porcentos de coisas confusas e outros que me faço. Será que existe um carinho em meios roda muinhos? A resposta para ambos seria sim. Mas cadê? É fácil de achá-lo ou são tão perdido feito nós? Não cabe a nós sermos cristalinos. Gostamos de vidros embaçados e dúvidas venenosas. Não cabe a nós sermos um casal apaixonado, tem dê ser amantes revoltados. Quaisquer que seja a oportunidade para um caminho de perfeição nossa, perderíamos, porque a perfeição não se encaixa, não cabe e não entra, tão desfocada que não chega nem perto é acenar pelo retrovisor e o sinal verde grita para seguirmos. E seguimos.

(Fernanda Lionetti)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Complicados demais para uma vida normal

Faremos parte dum casal errado. É como uma noiva de vermelho e um noivo de verde-limão. É como enquanto entro trocar Rock à música de sempre. É como os estranhos. Somos estranhos. E talvez isso, me faz te amar tanto e nos amarmos tanto. O diferente, o radical, o feio para noventa por cento e o bonito para nove por cento. E um por cento de sensacional para nos mesmos. E nossos mimos. Estranhos. Podemos dizer a gente pode porque sim, a gente pode. Porque num discurso de poesia romântica falaríamos de boca cheia, cuspindo literalmente o pão de queijo.
"O amor é complicado e caralho, a gente se fode.
A gente se entope de sangue quente de nós mesmos e continuamos vivos por sangue gelado!
A gente é estranho, mas a gente é a gente porra. E não importa.
Amor tem, sendo assim, não precisaríamos de amor."
E nos engasgaríamos, porque nós, nós somos complicados, procuramos por carros voadores enquanto encomendam jatinho particular.
É estranho ser a gente, cara, mas a gente consegue. É só continuar sendo a-gente.

(Fernanda Lionetti)

Amor existente

E portas abrindo e muros subindo, oportunidades vindo e saindo. Quer um copo de vinho? Senta aqui do meu lado, vamos bater um papinho. Ora, eu sei; não suporta a dor que te põe pra fora até do teu lar. Quando pensas que está perfeito um deslize acontece. Mas ta tudo perfeito do modo existente é que a perfeição não existe, o que existe é isso aí que tu vê pela tevê, que tu escuta na rádio. É esses cortes que a música calma leva. E com calma se ajeita de novo, do modo mundo real. Não gosta de coisa fácil? Nem eu. Mas não suporto o difícil demais. E meio termo, ah, desgosto total. Pressão demais. Nem sei o que gosto, sei do que não gosto quer saber? Não queira, isso não terminaria hoje, nem amanhã, nem depois... Não terminaria. Não gosto de muitas coisas. E gosto, gosto muito, de poucas que só sei depois que admito a mim mesma o gostar que ignorei. E nem todas essas poucas, nem mesmo essas pouquíssimas são dignas de meu entregar. Não me entrego. Não tão cedo. Só depois de anos, uns, onze! Prometo que vale a pena no final, serei tua no total. Mas não espere porque valerá à pena somente. E sim, porque valerá muito a pena. Para mim e para você, porque o vinho velho, vira vinho Francês nos nossos lábios perfumados de amor.

(Fernanda Lionetti)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Passa depressa

Tenta obedecer tua vontade de silêncio, tampa os ouvidos brutamente para romper os gritos do coração rabugento. E o escuta pelos ouvidos. Percebe que está viva e talvez seja um sonho, num sonho o qual ainda se encontra viva em sua cama a pensar. Observa o dia, o mês... O ano, que esta prestes a acabar. Não aproveitou muito, mas o que aproveitou foi pra marcar. E está tão próximo do fim, mas um fim, porém este chega a agradar. Cinco anos passa rápido, nem gosto de pensar, que há cinco anos vou ter vinte já ‘taria a trabalhar. Só pode ser brincadeira como tudo passa rápido, mas deixa de besteira to crescendo, quê eu faço? Meu pé não é mais vinte já passou dos trinta e três, eu olho pra janela e me assusto com a casa da vizinha de número três. Até a rua onde moro daqui cinco anos vou mudar, morando sozinha somente eu a me atarefar. Sem comida de mãe, pois então devo aprender a cozinhar. Tem um tempo ainda mais quase nem louça direito sei lavar. A preguiça consome e estou crescendo, nem da pra acreditar. Como será meu marido, como serão meus filhos? Não da pra me habituar. E o ano acabando, as mudanças começando, os chapéus esquentando e nem direito sei sambar. Daqui um pouco crio meus filhos, e o que vou ensinar? Se tiver uma menina e se chamar Clarinha, só ovo vou fritar. Mas se for menininha, muito sofrerá tadinha, vou ter que bem cuidar. A receita de bolo, a torta, e gosto tudo a rechear.

To crescendo e pensando só no que vou me formar. Será que vou ganhar muito dinheiro? Pra no shopping ir gastar... Às bobagens comuns, que não é fácil concretizar. Queria crescer menos depressa. Sei lá, passar dois anos com o mesmo número de idade, seria mais fácil se acostumar. Mas idade enjoa e velhice desgasta, não gosto de pensar. Mas eu cresço tão rápido, nem sei o que faço pra me aliviar. Talvez dê tudo certo e depois eu confesso o que eu vou virar. Só vou aproveitar esses anos de adolescência e muito estudar. Já que tive boa infância não vou difamar o resto pra vida se transformar. Que tudo valha a pela, que tudo seja doce e que nada engorde. Só o amor.

(Fernanda Lionetti)

sábado, 3 de dezembro de 2011

Casal errante é um pouco assaltante

Quando é que vou me perfumar com teu cheiro? Quando é que vou colocar tua bermuda? Quando é que vou vestir teu blusão azul-bebê que é mais meu que teu? Quando é que vou receber um presente do “dia do nada” só para ver o quanto sou amada? Quando é, e quando é que vou acordar com beijos molhados de amor pelo garoto encantador? Quando é que vou dizer “quando é” e vai aparecer com um buquê de rosas brancas e vermelhas nas pontas respondendo “agora é”. Menino, quando é? Quando é que vai me encher de abraços no calor só para grudarmos? Quando é que em pleno dia geloso irá me jogar bexigas d’água? Eu não vou odiar. Nem amar. Mas vou adorar, porque chuparia sorvetes com a garganta inflamada, pisaria em cacos de pés descalços, quebraria a perna de propósito, pularia da ponte quando embaixo forem pedras. Debocharia do mar a espera de uma onda que me cobrisse e seria comida de tubarões.

Entraria de emo numa festa rock and roll. Escreveria um livro de gírias feitas por mim, com significados que nem mesma me lembro. E por você eu nem seria eu. Passaria dias sem comer após ler no jornal que o ser humano pode ficar até setenta dias sem comer. Ficaria doente, trabalharia como chorosa em enterro de estranhos. Cantaria na vontade de quebrar copos e fazer com que doessem os ouvidos. Seria má. Como uma novela de vilãos. Quer errar comigo? Vamos ser errados. Derrubar tudo do avesso, fazer com que gostem da complicação e tornar pessoas chatas em pessoas loucas. Vamos constranger entreter, até remexer. Desenterrar uma música favorita e fazer virar sucesso em nossa própria língua. Aceitar as coisas como elas são para que possamos ser aceitos como somos. Loucos e vezes patéticos, sem rotina. Café da manhã meio dia e almoço seis horas. Jantar meia noite. E lanchinho pós jantar as quatro da manhã.

Quero ser rebelde, seja comigo. Descubra um conto de história boa e escrita má. Vamos mudar e dar de presente para o(a) escritor(a). E assim, ela aprenderá a conquistar leitores. Vamos somente ler coisas ruins? Vamos nos ler então? Porque somos ruins, há de concordar. Porque somos jovens atrevidos. Que derruba vinho em vestido branco de propósito. Apenas para a decoradora ficar mais criativa com o erro alheio. Ei quero dançar como Michael Jackson. Mas dentro dum Cross Fox. Menino não sou como às demais. Fofa e educada sempre. Correta. Só em momentos necessários. Falo palavrão quando fico nervosa e sou de ponta cabeça. Pouca estrutura e estressada, muito incorreta. Mas eu quero você, desse jeito todo meu. Mas eu quero você de um jeito todo meu. Mas eu me entrego à você, de um jeito inteiro seu. Basta ser como sempre foi, como nos conhecemos menino.

Em plena festa à fantasia, largou a princesinha e foi dançar comigo vestida de assaltante, ainda jogou a piada de que queria que eu lhe assaltasse. E assaltei, mas também me assaltou. E assaltado apaixonados dum jeito só nosso ainda somos vivos. Ainda não houve briga. Ainda não houve desentendimento, porque você quando erra; erro também e ficamos quites. De um jeito complicado, que só nós entendemos. Não ‘dianta ‘cê entender leitor, quase nem mesmo nós entendemos. Mas d’uma coisa a gente sabe. Vamos errar até a blusa rasgar, até o chifre quebrar, até a lama secar. Até o mundo acabar...?

(Fernanda Lionetti)

O amor nunca foi tudo

Quase inteira, tornou-se enfermeira.
Quis cuidar de alguém, que a chamasse de meu bem.
Conheceu alguém, em pleno vai-e-vem.
E ele veio, como foi. Embora todo o cuidado da jovem enfermeira;
Foi.

Um quase adeus estava escrito na testa dos demais.
E foi demais...

A jovem não conseguia dizer “oi” nem menos para tua avó que lhe entregava chá de ervas frescas.
O má jovem a fitou depressa segurando belas mãos de uma adorável senhora.
E um bilhete lhe deixou na porta: Desculpe-me ter ido embora, como um bom enfermeiro tive de cuidar de minha avó. Que estava prestes a falecer. E teu desejo mais saboroso era que me cassasse com minha prima. E casei. E hoje de preto estou a caminho de teu enterro. Ela morreu, mas vive em nós. E como boa enfermeira. Peço-te para que possa cuidar de minha mãe ao meu lado. Estou prestes a morrer também. Câncer. Cân-cei.

(Fernanda Lionetti)